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O menino que deu na mãe por causa do tomagoshi

Estamos no fim do século
Do milênio quem diria
E a ciência do homem
A cada segundo cria
Novos inventos que tentam
Melhorar o dia-a-dia.

Nesse trancoso se vê
Que devemos ter cuidado
Pois o mal quando quer vir
Nem sempre manda recado
E o que pra muitos é certo
No final se mostra errado.

Fernandinho era um menino
Comportado, obediente
Estudioso, sensível
Nem normal, nem diferente
Era um menino comum
Com seu olhar de inocente.

Bater bola no campinho
Era a sua diversão
Ouvir música, ver filmes
De aventura, luta, ação
Também soltar papagaio,
E jogar dama e gamão.

No seu último aniversário
Com carinho especial
Sua mãe deu-lhe um presente
Que na loja achou legal
Foi um tal de tomagosh
Ou bichinho virtual.

É um presente dos céus
Disse o vendedor dali
É um bichinho tão bacana!
Que melhor eu nunca vi
Ele nem morde, nem arranha
Nem faz cocô, nem xixi.

E tem mais uma vantagem
É que esse brinquedo ensina
Seu filho ser responsável
Exercita a disciplina
Comprar um bichinho desse
É um negócio da China.

É brinquedo inventado
Lá pras bandas do Japão
Parecendo um minigueime
Mas que tem a precisão
De se botar pra dormir
E dar alimentação.

Desde o dia em que ganhou
Esse brinquedo, Fernando
Mudou de comportamento
Não estava mais estudando
E até bola no campo
Ninguém lhe via jogando.

Passava o tempo sentado
Cuidando do seu brinquedo
Ia dormir já bem tarde
Se levantava bem cedo
Que faltasse alguma coisa
Pro "bichinho" tinha medo.

Por causa disso na escola
Não ia lá muito bem
Teve até notas vermelhas
Quem antes tirava cem
E até em disciplina
Estava fraco também.

Quando estava bem na véspera
De fazer prova final
A professora lhe disse:
Se não quiser levar pau
Amanhã não me apareça
Com esse bicho virtual.

Ele pensou, o que faço
Não pode ficar sozinho
Precisa água, comida,
Ir pra cama, ter carinho
Se ninguém der tudo isso
Irá morrer meu bichinho.

Eu vou pedir pra mamãe
Tomar conta do coitado
Enquanto faço minha prova
Sei que estará bem tratado
Pois ela sabe que ele
Exige muito cuidado.

Dona Ester, mãe de Fernando
Dessa idéia não gostou
Mas para ajudar o filho
E tanto que ele implorou
Cuidar desse tomagosh
Sem muito gosto aceitou.

Pois a vontade que tinha
Era jogá-lo no mato
Para ver se seu filhinho
Tornava a ser bem sensato
E pensasse noutra coisa
Além desse "bicho"ingrato.

Fernando foi pra escola
Com bastante ansiedade
Concentrou-se no exame
Com grande dificuldade
Parecia presentir
Alguma calamidade.

Tão logo tocou a campa
Fernando desinbestou
Correndo logo pra casa
pra saber como passou
o seu brinquedo estimado
que com sua mãe ficou.

Mas na casa de Fernando
Dona Ester muito envolvida
Nos afazeres domésticos
Esqueceu de "dar comida"
E o bichinho virtual
Acabou perdendo a vida.

Na verdade, Dona Ester
Passou a manhã todinha
Lavando roupa pra fora
E cuidando da cozinha
Mesmo assim inda tentou
Servir àquela coisinha.

No entanto num descuido
Deixou queimar o feijão
Precisou catar novamente
E botar outro no fogão
Por isso perdeu a hora
De dar alimentação.

Fernando chegando em casa
Para o seu quarto correu
Quando pegou o "bichinho"
Vendo então que ele "morreu"
Ficou tomado de ódio
E seu sangue lhe ferveu.

Disparou chutando os móveis
Gritando descontrolado
- Você matou meu bichinho
Pois irá pagar dobrado
Jogou-se em cima da mãe
Que ela tombou de lado.

Com o baque Dona Ester
Com a cabeça bateu
Lá no armário da cozinha
E ali desfaleceu
Fernandinho inda raivoso
Chutou a mãe e mordeu.

Ainda bem que os vizinhos
Escutaram a gritaria
Correram e a socorreram
Com a maior serventia
Acalmaram Fernandinho
Que em lágrimas se esvaía.

Dona Ester recuperou-se
Do ataque ensandecido
Fernandinho pediu perdão
Confessou-se arrependido
E Dona Ester se abraçou
Com seu filhinho querido.

De bichinho virtual
Não quiseram saber mais
Trocaram o tomagosh
Por outros bem mais reais:
Uma cobra, um jacaré,
Dois gatos maracajás

 

 

 
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